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Hoje eu entendo porque meus pais sempre deram muito valor à mesa como um lugar de formação e transformação. Cresci em um lar onde éramos nove irmãos, a mesa era grande e cada encontro em torno dela era uma celebração da vida. Quando me casei, minha esposa Rousemary me disse: nós vamos fazer em nossa casa, como era na sua, a mesa vai ser mais do que um móvel para compor a ornamentação da casa, será um lugar onde construiremos a história da nossa família.

Só depois de décadas pastoreando casais é que percebi a gravidade profética dessa frase. Vivemos numa civilização de mesas mudas, mobílias caras, decoradas para a fotografia, mas vazias de presença. Trocamos a comunhão pela conectividade e isso é uma tragédia disfarçada de progresso. O filósofo judeu Martin Buber escreveu, em sua obra clássica sobre a existência dialógica: "Toda vida verdadeira é encontro". Não existe fórmula pedagógica, terapêutica ou espiritual que substitua o encontro face a face, e nenhum lugar arquetípico esse encontro como a mesa.

É por isso que os evangelhos não escondem Jesus nos templos; eles o revelam nas mesas. Foi partindo o pão que os discípulos de Emaús "abriram-se os olhos, e o reconheceram" (Lucas 24:31). O reconhecimento do Ressuscitado não aconteceu num sermão, mas num gesto doméstico e ordinário. Isso não é acidente narrativo; é pedagogia divina. Este livro nasce da convicção de que recuperar a mesa é recuperar a própria espiritualidade familiar que a pressa contemporânea nos roubou.